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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Piauí será sede do I Encontro Nacional de Acesso à Terra no Semiárido

Com o tema “Democratizando Terra e Água, construindo novas realidades”, o encontro reúne pessoas de todo o nordeste e Minas Gerais para discutir a realidade agrária no semiárido.



Muita animação e disposição para participar das discussões e trocas de experiência, é o que o Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido e a Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA Brasil espera para I Encontro Nacional de Acesso à Terra no Semiárido, que será realizado nos dias 10, 11 e 12 de agosto, em Teresina. O encontro vai reunir cerca de 100 agricultores camponeses de todos os estados do Nordeste e Minas Gerais, organizações da sociedade civil e governantes para debater sobre a realidade agrária do Semiárido Brasileiro.

O Encontro Nacional de Acesso à Terra pretende proporcionar reflexões e debate sobre a democratização da terra que garanta a soberania alimentar das famílias agricultoras do Semiárido brasileiro. Para isso, o evento vai reunir quatro temas que serão analisados em oficinas: direito ao território, atingidos e/ou ameaçados pelo agro e hidronegócio, reorganização fundiária e agricultura familiar e crise fundiária. Cada temática será discutido à luz de relatos de experiências reais.

Para favorecer um processo de reflexão mais aprofundado sobre a realidade agrária do Semiárido do Brasil, as temáticas serão apresentadas através de experiências de luta pela terra que foram mapeados em todos os nove estados da ASA. O Piauí apresentará a experiência das comunidades tradicionais Tapuio de Queimada Nova e Novo Zabelê de São Raimundo Nonato.

Para Carlos Humberto Campos, coordenador executivo da ASA pelo estado do Piauí, a realização do encontro é uma oportunidade de discutir as várias realidades de exclusão que existem e de pensar, conjuntamente, como fortalecemos as resistências do povo do Semiárido. “O debate sobre o acesso à terra traz o tema para a pauta do dia, pois a terra é o elemento fundamental para se construir um desenvolvimento sustentável”, diz.

Dom Tomás Balduíno abre encontro da ASA em Teresina (PI)

A abertura do evento, que acontecerá na quarta-feira (10), ás 19h no auditório Mestre Expedito do Centro de Artesanato Mestre Dezinho, contará com a participação de Dom Tomás Balduíno. Goiano, filósofo e teólogo com pós-graduação em Antropologia e Linguística, Dom Tomás Balduíno foi Bispo da Cidade de Goiás (hoje Goiás Velho) durante 31 anos. De 1965 a 1967 cuidou do prelado de Conceição do Araguaia, se tornando bastante conhecido por seu trabalho em defesa de índios e trabalhadores rurais.

Dom Tomás Balduíno foi fundador do Conselho Indigenista Missionário, em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975. Assumiu a presidência da entidade em 1999, quando a luta pela posse da terra começou a se intensificar no País. Destacado ativista das causas dos povos mais necessitados e entusiasta do movimento dos trabalhadores sem-terra no País, Dom Tomás tem se colocado no meio da polêmica agrária, criticando o governo de omissão e apontando o agronegócio, o judiciário e autoridades como responsáveis pela violência no campo.

O Bispo foi reconhecido por diversas instituições por sua luta pelos direitos humanos e justiça social. Em 2006, recebeu o Prêmio de Direitos do Homem Dr. João Madeira Cardoso, pela Fundação Mariana Seixas, de Viseu, Portugal, em colaboração com o Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados. No mesmo ano, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Católica de Goiás. Em 2008, recebeu o prêmio Reflections of Hope, da Oklahoma City National Memorial Foudation, como exemplo de esperança na solução das causas que levam a miséria de tantas pessoas em todo o mundo.

A abertura do evento contará também com a participação da dupla regional “Os Olivêra”, animando o evento com músicas e poesias com a temática do sertão. Durante suas apresentações, há uma intercalação de sons e letras com arranjo ao estilo piauiense de fazer arte, com um refinado toque melódico associado a poemas.

PROGRAMAÇÃO

10 de agosto
19h Abertura do evento
19h30 Composição da Mesa
Democratizando terra e águas, construindo novas realidades
20h50 Debate em plenária

11 de agosto
8h Mística
8h40 Apresentação da metodologia do trabalho nas oficinas temáticas
9h Oficinas temáticas
14h Carrossel de Experiências

12 de agosto
8h Plenária de síntese
9h30 Trabalho em grupo por estado
14h Mesa de diálogos de acesso a terra no semiárido
16h30 Mística de encerramento

Serviço:
I Encontro Nacional de Acesso à Terra no Semiárido “ Democratizando Terra e Água. Construindo novas realidades”
Abertura: Auditório Mestre Expedito do Centro de Artesanato Mestre Dezinho – Praça Pedro II
Encontro: Prédio da Obra Kolping do Piauí, localizado no Conjunto Dirceu Arcoverde II, 3978, bairro Dirceu.
Realização: Articulação no Semi-Árido Brasileiro (Asa Brasil)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Beneficiamento de frutas: trabalho e vida no Semiárido piauiense

Em meio às serras do município de São Raimundo Nonato, sudeste do Piauí, nasce o Assentamento Fazenda Lagoa Novo Zabelê. O assentamento fica numa área de seis mil hectares, a 12 quilômetros da zona urbana do município.

Há 11 anos, as 251 famílias que foram transferidas da área ao redor do Parque Nacional Serra da Capivara para o assentamento, ainda não possuem terra registrada e, até agora, esperam uma iniciativa do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para solucionar a questão. O Parque Nacional da Serra da Capivara é um parque arqueológico com uma riqueza de vestígios que se conservaram durante milênios, acredita-se que o primeiro homem americano viveu nessas terras.

Mesmo diante da dificuldade, os moradores não deixaram se abater e tentam recomeçar suas vidas no local. Diversas iniciativas de projetos desenvolvidos pela Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato vem transformando, desde 2004, a vida das famílias do Novo Zabelê.

A partir de projetos como Dom Helder Câmara (PDHC), que visa desenvolver ações estruturantes para fortalecer a Reforma Agrária e a Agricultura Familiar no Semiárido nordestino, no seu Plano Operativo Anual (POA) proporcionou o registro do assentamento em 21 ações e diversas atividades nas seguintes áreas: sementes; galinha caipira; higiene, limpeza e beleza; frutas; forragem; apicultura; horta; fitoterapia e artesanato. O projeto é um acordo de empréstimo entre o Governo Brasileiro/Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrário (FIDA) que vem contribuindo para o crescimento e alegria das famílias que ali residem.

Uma atividade de destaque é a iniciativa de um grupo de 07 mulheres que trabalham com o beneficiamento de frutas nativas como umbu, caju e maracujá, além de goiaba, fruta típica do assentamento. Lucimar Rodrigues de Macêdo (responsável pela comercialização), Maria Onélia Martins (caixa de beneficiamento), Sandra da Silva Oliveira (controle de estoque), Carmelita da Silva (controle de qualidade), Maria Luciene Miranda (controle de caixa), Ana Claudia da Silva (comercialização) e Aldenora Cardoso (coordenadora) compõem a casa de beneficiamento de frutas.

Dona Maria Onélia lembra que o projeto começou com a visita de técnicos - agentes da Cáritas Diocesana ao assentamento, informando sobre os diversos projetos para a região. E como na área se planta caju, goiaba, umbu e maracujá e muitas das árvores frutíferas estavam sendo devastadas, as mulheres decidiram investir nessas frutas e assim, foram testando receitas.

No início, cada uma das mulheres trazia os produtos necessários de casa, como açúcar, panela, colher e juntas compravam o gás de cozinha. Os doces eram produzidos em uma casa, bem simples, cedida por um morador do assentamento, mas depois de dois anos, o grupo organizou uma casa para fabricação.

Em 2005, com um projeto de capital de giro, também beneficiado pelo Projeto Dom Helder, as mulheres puderam custear as despesas de luz, água e gás e também comprar os materiais necessários para a produção, como açúcar e as frutas, estas são fornecidas pelas famílias do próprio assentamento, de acordo com a safra agrícola.

Das frutas, as mulheres produzem doce, licor, geléia, rapadura, cajuína (caju), um processo de beneficiamento que vem transformando a vida do grupo.

A atividade mudou a rotina de Dona Onélia, pois antes, ela vivia no percurso da roça para casa, passava mais tempo na roça do que na comunidade. E diz que pegava sol e chuva, numa rotina intensa de trabalho pesado. Enquanto hoje, a realidade é outra, ela trabalha na sombra e conversando com as novas amigas.

Através do Plano Setorial de Qualificação (PLANSEC), programa de qualificação de grupos do Governo Federal, o grupo recebeu capacitação em diversas áreas como produção, beneficiamento, cooperativismo, divulgação, plano de negócios, certificação e meio ambiente. Hoje, as mulheres são convidadas para contar a experiência delas em intercâmbios e feiras.

Texto original publicado no boletim "O Candeeiro" nº 17, por Sabrina Sousa Edição: Mariana Gonçalves